Quando se fala em inteligência artificial na indústria, ainda é comum tratar o assunto como uma transformação que está por vir. Na cadeia de papel e celulose, porém, várias dessas mudanças já saíram dos projetos-piloto e chegaram à rotina das operações.
Hoje, algoritmos ajudam a decidir onde plantar determinadas variedades de eucalipto, sistemas de IA apoiam equipes dentro das fábricas, robôs e drones realizam inspeções industriais e plataformas analisam dados ambientais em grandes extensões territoriais.
Mais do que uma tendência tecnológica, a inteligência artificial começa a alterar a maneira como conhecimento, dados e experiência profissional são utilizados da floresta à fábrica.

IA apoiando decisões dentro da fábrica
Um exemplo está na fábrica da Suzano em Três Lagoas (MS), líder mundial na produção de celulose. Em parceria com a Microsoft, a companhia desenvolveu a Ana Maria, solução de inteligência artificial generativa criada para apoiar profissionais das áreas de operação e engenharia no processo produtivo de celulose.
Integrada ao Microsoft Teams, a ferramenta consegue consultar informações relacionadas ao digestor (equipamento central no processo de cozimento da madeira) e responder a questões dos profissionais com base em manuais, históricos operacionais e dados dos sistemas.
Na prática, uma equipe que antes precisava localizar informações em documentos técnicos pode consultar a IA para encontrar determinado procedimento, recuperar o histórico de uma ocorrência ou realizar análises estatísticas. Segundo a Suzano, o uso da solução reduziu em 15 horas o treinamento necessário para integrar novos profissionais ao processo de cozimento da celulose.
O caso evidencia uma mudança importante: a IA não aparece apenas na automação de tarefas. Ela passa a atuar também na gestão e no acesso ao conhecimento acumulado pela operação.

Da manutenção corretiva à operação mais preditiva
Outro avanço recente está nas inspeções industriais.
Em junho de 2026, a Suzano anunciou o uso de drones, robôs, sensores, câmeras de alta resolução e sistemas de termografia na unidade de Mucuri (BA). As tecnologias são usadas para acessar áreas de difícil alcance, coletar informações sobre os equipamentos e antecipar possíveis falhas.
O projeto inclui ainda a construção de uma base digital com o histórico dos ativos industriais. A intenção é ampliar o uso de analytics, inteligência artificial e visão computacional para comparar informações ao longo do tempo e aumentar a capacidade preditiva da operação.
Para quem trabalha em manutenção, engenharia ou produção, isso muda a própria dinâmica do trabalho. Em vez de depender apenas de inspeções pontuais ou reagir depois de uma falha, as equipes passam a ter uma quantidade maior de informações para decidir quando, onde e como intervir.

A inteligência artificial também chegou à floresta
Essa transformação não começa nos portões da fábrica.
Na área florestal, a Suzano utiliza o Tetrys, algoritmo que combina analytics, big data e inteligência artificial para analisar condições como temperatura, volume de chuva, altitude e características do solo. A partir dessas informações, o sistema auxilia na escolha do material genético de eucalipto mais adequado para diferentes ambientes de produção.
Em outra frente, uma parceria com a startup Marvin utiliza inteligência artificial, dados geoespaciais e informações de satélite para apoiar atividades como previsão de produtividade, gestão de recursos hídricos, avaliação de riscos, medição de carbono, certificação e rastreabilidade da cadeia de suprimentos. A plataforma é aplicada aos cerca de 2,7 milhões de hectares destinados pela companhia à produção e à conservação.
São aplicações que aproximam ainda mais áreas historicamente conectadas ao conhecimento florestal de disciplinas como sensoriamento remoto, ciência de dados e modelagem.
E esse movimento não está restrito a uma única companhia. A Klabin relata aplicações de IA, IoT, machine learning, manutenção preditiva e decisões orientadas por dados, além de ter estruturado um escritório interno dedicado à governança da inteligência artificial.
O conhecimento técnico ganha novas formas de aplicação
Isso não significa que a experiência construída ao longo de anos de trabalho perde importância. O movimento é justamente o contrário.
Quanto mais dados e ferramentas estão disponíveis, mais relevante se torna saber qual problema precisa ser resolvido, quais informações fazem sentido e como interpretar os resultados no contexto da operação. Em discussão promovida pela KPMG sobre IA no setor de papel e celulose, representantes da consultoria e da Klabin destacaram que processos estruturados, qualidade dos dados e conhecimento para utilizar as informações geradas pela IA são condições fundamentais para que a tecnologia produza valor.
A transformação que já está ocorrendo, portanto, não separa tecnologia e conhecimento do setor. Ela aproxima os dois.

Inovação também depende da formação de quem está chegando
Para quem já atua na cadeia florestal e industrial, acompanhar essas mudanças passa a fazer parte da própria evolução profissional. Mas existe também um desafio de longo prazo: garantir que novos profissionais encontrem oportunidades de formação e contato com o conhecimento que está transformando o setor.
É nessa base que o Primatera trabalha. Como fundo patrimonial dedicado ao setor florestal e de biomateriais, apoia a formação de estudantes por meio de bolsas de estudo e iniciativas de divulgação científica, contribuindo para aproximar conhecimento, pesquisa e desenvolvimento profissional.
A tecnologia pode mudar rapidamente. Construir conhecimento, formar pessoas e criar condições para que novas gerações participem dessa transformação exige investimento contínuo.
Apoiar o Primatera é contribuir para que a evolução tecnológica do setor seja acompanhada também pela evolução das pessoas que fazem parte dele.